domingo, 1 de abril de 2012

Com ou sem crise, reclame!

Por: Nelson Gonçalves

No início dos anos 70, quando ainda era menino, morei numa pequena cidade no interior do Paraná. Naquela época, no Brasil, nem se falava em auto-serviço e as compras eram feitas nos chamados Secos e Molhados, armazéns que vendiam de tudo um pouco. Os balconistas atendiam o cliente – que era chamado freguês – e este podia, no máximo, apontar na prateleira o produto que queria levar.

Nessa época também, nos rincões do país, mal se conheciam marcas de produtos, principalmente as commodities. Comprava-se a granel: Um quilo de sal; três de feijão; dez de arroz; uma barra de sabão; um pacote de macarrão...

A maior rede de armazéns da região – três lojas em cidades diferentes – eram as Casas Santos e o seu proprietário, o “seu” Santos era também o maior anunciante da rádio local (Am é claro!) e o título desse artigo era o seu lema.

Eu, obviamente, não tinha a menor noção do que aquele homem dizia, mas hoje vejo com clarividência a profundidade daquele pensamento. Vivíamos a propalada crise do petróleo que assolou o mundo na década de 70 e deixou corações e mentes atordoadas com a incerteza do futuro. Mas as Casas Santos anunciavam promoções e vendiam a prazo na famosa caderneta do fiado. Essa também foi a escola de Samuel Klein, que transformou as Casas Bahia no maior e mais rentável varejo do Brasil. Não por acaso, o maior anunciante também. Mesmo agora que transferiu o controle acionário do negócio.

Bem, atravessamos novamente uma crise de proporções mundiais e esse foi o momento em que conhecemos os verdadeiros empreendedores. Ousados, preparados, com visão ampliada, fé no Brasil, na força do seu negócio e na capacidade transformadora dos seus colaboradores. Diferente daqueles que surfaram na maré do crescimento mundial para enriquecerem e agora se esconderam, travaram os investimentos, desmontaram o RH e novamente contaram com a sorte para continuarem vivos.

Não estou relativisando a crise, ao contrário, estamos longe de dizer que acabou. Mas, maior que a crise mundial provocada pelos sub-prime e pelos derivativos foi a crise de confiança e a crise que, se quisermos, a gente consegue domar e dominar. Nada nunca foi fácil no Brasil. Sempre tivemos um dos créditos mais caros e difíceis do mundo, carga tributária abusiva, mão de obra desqualificada, parco incentivo à pesquisa científica, deficiência de obras estruturais e falta de incentivo à produção. Sobrevivemos a ditadura, inflação, corrupção e tantos outros flagelos, mas crescemos. E apesar das crises, inflação, planos econômicos, Congresso Nacional, Assembléias e governantes de caráter duvidosos somos um país pujante e empreendedor.

O empresário sagaz não conjugou e nem conjuga o verbo da crise: Eu não compro, tu não vendes, ele não emprega. Ao contrário, aproveitou e continua a aproveitar a oportunidade. É na crise que os outros o percebem e pagam os dividendos quando ela acabar. E ela vai acabar. Sendo simplista; não há mal que dure para sempre, mas os efeitos nocivos da insegurança e da retração podem minar o negócio e destruir reputações.

O momento é de permanecer alerta e com as mangas arregaçadas. Fomentar a cadeia produtiva do segmento e qualificar mão de obra. Motivar e treinar os colaboradores. Encantar clientes e fazer parcerias ganha x ganha duradouras. De sair do ninho de conforto e trombetear para o mercado que você existe e que seus produtos têm qualidade. É hora de aumentar a malha de distribuição e animar representantes e distribuidores. De orquestrar comprometimento e não apenas envolvimento. De rever conceitos, valorizar prestadores de serviços, agências de propaganda, assessoria de imprensa e acreditar na força do associativismo.

O mundo mudou e o ser humano deve ser compreendido na sua plenitude. Esse é o agente transformador e é dele que vem o lucro. Botar a mão no seu rico dinheirinho, principalmente em períodos transitórios de crise, é tarefa para os destemidos. Talvez seja essa também a oportunidade de aprendermos com John D. Rockefeler e sua célebre frase: Se um dia só me restasse um único dólar, eu o investiria em publicidade. Ou na singela sabedoria do seu Santos que chamava anúncio publicitário de reclame!

Claro que para obter um bom retorno para investimentos em comunicação é preciso identificar o meio mais apropriado ao tamanho e perfil do negócio. Assim como zelo e foco na qualidade do material produzido para divulgação. Por isso sempre que possível, associe-se a parceiros comprometidos com o seu crescimento. E isso independe do tamanho do seu negócio.

Na crise, reclame. Na bonança, também!

Nelson Gonçalves é jornalista e palestrante.
www.nelsongoncalves.net

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