Possível fenômeno que aflige brasileiros que querem comprar um imóvel não pode ser descartado, diz estudo da FGV, mas também não há evidências claras.
Metodologia que serviu para datar as bolhas geradas pela
crise dos subprime nos EUA foi aplicada ao mercado paulistano.
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São Paulo – Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas
de São Paulo (FGV-SP) considera pouco provável que o aumento recente dos preços
dos imóveis na cidade de São Paulo seja reflexo de uma bolha imobiliária,
questão que tanto aflige quem quer comprar um imóvel no Brasil. O estudo
ressalva que a possibilidade de bolha não pode ser totalmente descartada;
porém, a metodologia utilizada e os dados disponíveis atualmente não identificam
com clareza que uma bolha exista ou esteja em formação.
“Embora a presença de bolha não possa ser totalmente
descartada, a hipótese mais provável é que o aumento dos preços de imóveis
recente deve ter sido ocasionado por fatores normais ligados a excesso de
demanda por imóveis”, diz o estudo, assinado por Emerson Fernandes Marçal,
Paulo Gala e Rogério Mori.
Os pesquisadores atribuem o aumento da demanda à melhoria
das condições de crédito, à queda dos juros e ao aumento da renda das famílias,
além de uma redução nos juros das aplicações financeiras, o que pode ter levado
os agentes econômicos a buscar imóveis como forma de investimento. O aumento de
demanda por moradia também pode ter pressionado os preços dos aluguéis, diz o
estudo. “Como a oferta no setor não responde prontamente por conta do tempo
necessário para viabilizar novos empreendimentos, o resultado foi um aumento de
preços”, diz o texto.
Em entrevista a EXAME.com, o professor Paulo Gala completou:
“Houve a descompressão do crédito habitacional. Saímos do estoque de três a
quatro bilhões de reais em 2003 para 100 bilhões de reais atualmente. O crédito
imobiliário no Brasil ainda representa 5% do PIB, menos do que em países como o
Chile e a África do Sul”.
Testes não descartam chance de bolha, mas também não
apresenta evidências claras.
O estudo utiliza testes formais de detecção de bolhas
desenvolvidos pelo americano Peter Philips e outros coautores que também permitem
identificar o início e o final de cada evento. Por essa razão, puderam ser
usados para datar as bolhas financeiras durante a crise dos subprime nos
Estados Unidos. É possível detectar as bolhas analisando se os preços dos
ativos em algum período apresentam comportamento explosivo.
Os mesmos testes foram aplicados aos preços dos imóveis em
São Paulo, conforme os dados divulgados pelo Secovi-SP, o sindicato da
habitação na cidade. O estudo observa que, utilizando-se diferentes índices
para deflacionar os preços – isto é, mensurar o desempenho real dos preços em
relação a esses indicadores – houve um aumento significativo de preços a partir
de meados de 2010. Em seguida, coloca a questão: esta alta significa bolha ou
não?
A análise levou em conta o conceito de “bolha”, segundo o
qual os preços dos ativos “subiriam sem lastro nos fundamentos até que em algum
momento a distância entre os mesmos seria tão grande que uma reversão abrupta
tornar-se-ia inevitável. Uma bolha seria então caracterizada por um contínuo e
forte aumento dos preços dos ativos sem base, seguido de um intenso e abrupto
ajuste em direção aos fundamentos. Haveria o período da euforia, seguido de
reversão praticamente instantânea aos fundamentos”, diz o estudo.
Os cálculos para a verificação da existência de bolha foram
aplicados às séries de preços deflacionadas por seis diferentes indicadores:
crescimento da renda nominal de salários de admissão, segundo o CAGED; preços
dos aluguéis na cidade de São Paulo, segundo o IBGE; preços dos aluguéis na
cidade de São Paulo, segundo o IBGE, e a taxa de juros do CDI mensal; e os
indicadores de inflação IPCA, INCC-DI e IGP-DI.
Quando os cálculos são aplicados às séries deflacionadas
pelos índices de inflação ou pelos preços dos aluguéis isoladamente, aparece a
chance de bolha, mas sem probabilidade detectável, explica o professor Paulo
Gala em entrevista. Segundo o texto, “A suposta bolha teria sido iniciada em
meados de 2010 e não teria terminado ainda”.
Porém, o próprio estudo diz que os resultados com as
métricas mais adequadas para avaliar o preço dos imóveis para a metodologia
adotada são os cálculos feitos sobre as séries deflacionadas pelo aumento de
renda das famílias ou o preço do aluguel em São Paulo e o CDI. Nesses casos,
aparece fraca evidência de bolha. “Os cálculos não mostram que exista uma
bolha. Pelo menos segundo essa metodologia, não”, diz Paulo Gala.
“Caso não haja bolhas no mercado imobiliário brasileiro,
espera-se que no futuro próximo ocorra uma consolidação dos preços dos imóveis
dentro de um novo patamar, sem aumentos contínuos como os verificados
recentemente ou quedas abruptas e intensas como seria esperado no caso de uma
bolha clássica”, conclui o estudo.
Fonte: Exame.com
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